Nunca vimos uma coisa assim. Ao menos,
eu nunca vi. A herança maldita da política de sujas alianças que Lula nos
deixou criou uma maré vermelha de horrores. Qualquer gaveta que se abra,
qualquer tampa de lata de lixo levantada faz saltar um novo escândalo da
pesada. Parece não haver mais inocentes em Brasília e nos currais do País todo.
As roubalheiras não são mais segredos de gabinetes ou de cafezinhos. As
chantagens são abertas, na cara, na marra, chegando ao insulto machista contra
a presidente, desafiada em público. Um diz que é forte como uma pirâmide, outro
que só sai a tiro, outro diz que ela não tem coragem de demiti-lo, outro que a
ama, outro que a odeia. Canalhas se escandalizam se um técnico for indicado
para um cargo técnico. Chego a ver nos corruptos um leve sorriso de prazer, a
volúpia do mal assumido, uma ponta de orgulho por seus crimes seculares, como
se zelassem por uma tradição brasileira.
Temos a impressão de que está em
marcha uma clara “revolução dentro da corrupção”, um deslavado processo com o
fito explícito de nos acostumar ao horror, como um fato inevitável. Parece que
querem nos convencer de que nosso destino histórico é a maçaroca informe de um
grande maranhão eterno. A mentira virou verdade? Diante dos vídeos e
telefonemas gravados, os acusados batem no peito e berram: “É mentira!” Mas, o
que é a mentira? A verdade são os crimes evidentes que a PF e a mídia descobrem
ou os desmentidos dos que os cometeram? Não há mais respeito, não digo pela
verdade; não há respeito nem mesmo pela mentira.
Mas, pensando bem, pode ser que esta
grande onda de assaltos à Republica seja o primeiro sinal de saúde, pode ser
que esta pletora de vícios seja o início de uma maior consciência critica. E
isso é bom. Estamos descobrindo que temos de pensar a partir da insânia
brasileira e não de um sonho de razão, de um desejo de harmonia que nunca
chega.
Avante, racionalistas em pânico,
honestos humilhados, esperançosos ofendidos! Esta depressão pode ser boa para
nos despertar da letargia de 400 anos. O que há de bom nesta bosta toda?
Nunca nossos vícios ficaram tão
explícitos! Aprendemos a dura verdade neste rio sem foz, onde as fezes se
acumulam sem escoamento. Finalmente, nossa crise endêmica está em cima da mesa
de dissecação, aberta ao meio como uma galinha. Vemos que o País progride de
lado, como um caranguejo mole das praias nordestinas. Meu Deus, que prodigiosa
fartura de novidades sórdidas estamos conhecendo, fecundas como um adubo
sagrado, tão belas quanto nossas matas, cachoeiras e flores. É um esplendoroso
universo de fatos, de gestos, de caras. Como mentem arrogantemente mal! Que
ostentações de pureza, candor, para encobrir a impudicícia, o despudor, a mão
grande nas cumbucas, os esgotos da alma.
Ai, Jesus, que emocionantes os súbitos
aumentos de patrimônio, declarações de renda falsas, carrões, iates, piscinas
em forma de vaginas, açougues fantasmas, cheques podres, recibos laranjas de
analfabetos desdentados em fazendas imaginárias.
Que delícia, que doutorado sobre nós
mesmos!… Assistimos em suspense ao dia a dia dos ladrões na caça. Como é
emocionante a vida das quadrilhas políticas, seus altos e baixos – ou o triunfo
da grana enfiada nas meias e cuecas ou o medo dos flagrantes que fazem o uísque
cair mal no Piantella diante das evidências de crime, o medo que provoca
barrigas murmurantes, diarreias secretas, flatulências fétidas no Senado,
vômitos nos bigodes, galinhas mortas na encruzilhada, as brochadas em motéis,
tudo compondo o panorama das obras públicas: pontes para o nada, viadutos
banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, orgasmos entre empreiteiras
e políticos.
Parece que existem dois Brasis: um
Brasil roído por ratos políticos e um outro Brasil povoado de anjos e “puros”.
E o fascinante é que são os mesmos homens. O povo está diante de um milenar
problema fisiológico (ups!) – isto é, filosófico: o que é a verdade?
Se a verdade aparecesse em sua
plenitude, nossas instituições cairiam ao chão. Mas, tudo está ficando tão
claro, tão insuportável que temos de correr esse risco, temos de contemplar a
mecânica da escrotidão, na esperança de mudar o País.
Já sabemos que a corrupção não é um
“desvio” da norma, não é um pecado ou crime – é a norma mesmo, entranhada nos
códigos, nas línguas, nas almas. Vivemos nossa diplomação na cultura da
sacanagem.
Já sabemos muito, já nos entrou na
cabeça que o Estado patrimonialista, inchado, burocrático é que nos devora a
vida. Durante quatro séculos, fomos carcomidos por capitanias, labirintos,
autarquias. Já sabemos que enquanto não desatracarmos os corpos públicos e
privados, que enquanto não acabarem as emendas ao orçamento, as regras
eleitorais vigentes, nada vai se resolver. Enquanto houver 25 mil cargos de
confiança, haverá canalhas, enquanto houver Estatais com caixa-preta, haverá
canalhas, enquanto houver subsídios a fundo perdido, haverá canalhas. Com esse
Código Penal, com essa estrutura judiciária, nunca haverá progresso.
Já sabemos que mais de R$ 5 bilhões
por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas. Não adianta punir meia
dúzia. A cada punição, outros nascerão mais fortes, como bactérias resistentes
a antigas penicilinas. Temos de desinfetar seus ninhos, suas chocadeiras.
Descobrimos que os canalhas são mais
didáticos que os honestos. O canalha ensina mais. Os canalhas são a base da
nacionalidade! Eles nos ensinam que a esperança tem de ser extirpada como um
furúnculo maligno e que, pelo escracho, entenderemos a beleza do que poderíamos
ser!
Temos tido uma psicanálise para o
povo, um show de verdades pelo chorrilho de negaças, de “nuncas”, de “jamais”,
de cínicos sorrisos e lágrimas de crocodilo. Nunca aprendemos tanto de cabeça
para baixo. Céus, por isso é que sou otimista! Ânimo, meu povo! O Brasil está
evoluindo em marcha à ré!
Obs.: Esse texto foi escrito em janeiro de 2012, o que não muda muito para os dias atuais.

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