Há uma considerável dose de exagero na
desconfiança de que o futebol deixará de ser um esporte do povo. Se “todo
mundo” gosta de futebol, como isso será possível ? Numa crônica anterior, fiz
uma abordagem do assunto e volto ao tema movido pelo lamento em torno do
pequeno público na rodada de reabertura do Castelão. Mesmo com uma programação
dupla envolvendo Fortaleza e Ceará, ouvi muita reclamação pelo preço do ingresso.
É fácil compreender o protesto. Não se vai a futebol sozinho. Existem despesas
obrigatórias, por exemplo, com transporte e alimentação. Some-se a isso a
preocupação com a violência, mesmo com todo o aparato policial garantido. O
gigantismo do acontecimento pode ter gerado outros receios numa população que
já desconfia de tudo. Sem a superficialidade dessas considerações, vários
aspectos devem estar sendo analisados a esta altura. Mas, vamos lá,
notadamente, no que diz respeito à preocupação com essa estória do futebol se
transformar em espetáculo de classes A e B. A atingir uma espécie de “estágio
de nobreza”. Tudo que é produto ou serviço relacionado ao futebol anda muito
caro: ingresso, lanche, camisa oficial de clube, publicações, pay per view e tantas
coisas mais. Isso deixa a patuléia sem poder aquisitivo para consumir,
excluindo-a da festa. Também quando os estádios diminuem de tamanho, o preço
das entradas pode ser artifício a criar “compensações” para os clubes.
Ordenados astronômicos de treinadores e jogadores já geraram o ovo da serpente
de problemas que podem colocar o futebol num patamar cada vez mais distante do
alcance do povão. Aí, sim, forçosamente teremos transformado a alegria do povo
em mais uma indústria do consumo de luxo. Olho vivo!
(Fonte: Roberto Moreira).

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